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Sobre a saudade que você deixou em mim

Friday, June 21, 2013
Quando se é criança nunca temos uma noção exata de quanto tempo se passou cada coisa. Por isso eu não faço a menor ideia de datas para contar essa história:

Eu e minha irmã vivíamos brigando por qualquer coisa e daí surgiu essa gatinha na minha vida. Claro que eu não sabia que era gatinha, e pelo seu jeito másculo de fazer as coisas logo jurei que fosse macho. Pus o nome de Mimo (que foi o primeiro para qual ela olhou pra mim enquanto eu gritava uma série de nomes). E Mimo ficou, mesmo depois que papai me explicou que ela era fêmea. Inclusive essa gata me deu uma lição: não é preciso ser feminina para ser uma mulher. E não foi a única coisa que essa gata fez por mim não, minha gente: ela fez eu e minha irmã pararmos de brigar de vez. Ficamos amiguinhas depois do surgimento daquela gata.

No começo minha mãe não queria ela, porque ela apareceu já grande, vinda da rua, etc — mas ela era tão bem cuidada e tão linda que não tinha como não querer apertá-la loucamente. Ou melhor, não podíamos apertá-la, ela impôs que a respeitássemos desde sempre. Respeito era uma coisa que ela exigia e retribuía. Tudo com a maior classe. Não entrava mais do que duas patinhas dentro de casa, cuidava a casa (a protegia dos cachorros) e não se atrevia nem a chegar perto da pomba que tínhamos; mas, claro, como ela assim fazia, cobrava de nós também que não tirássemos os pelos dela do lugar (principalmente do pescoço e da barbixinha) e nada de brincadeiras muito próximas como mão na barriga. Uma vez que tentei brincar com isso levei um tapa na cara e fui marcada com um arranhão enorme no nariz (e bonito, inclusive, tudo por aquela gata feito assim era). 

Depois de tratar ela com bolachinhas sortidas e água, minha mãe certamente ficou com pena e começou a comprar ração para ela. Foi quando descobri que era fêmea mas optei por chamá-la ainda de "Mimo", que era o nome pela qual atendia sempre que fosse dito. Além de que gatos não precisam ter distinção de gênero. Desde sempre eu inventei uma história de onde ela veio (e de tanto que ficou na minha mente já julgo ser real): Havia um lugar chamado "Mimolândia", a Mimo recém havia nascido. Era filha de um rei. Mas para exercer o mandato deveria ser homem. Nasceu mulher. A mulher do rei, com medo do que poderia lhe acontecer (ou de magoá-lo), tratava a menina como menino. E assim ela cresceu, numa mentira. Um dia ela foi descoberta e teve que fugir. Veio para minha casa, até onde ela resolveria criar coragem de voltar e comandar mesmo sendo mulher (e provar que sexo não define nada). 
(E acho incrível agora, analisando a história, como desde pequena o que eu pensava reflete no que penso hoje). 

Tínhamos aqui em casa, além da pomba, um marreco. O marreco era solitário, mas assim que ele e a Mimo se conheceram já sabiam que seria pra sempre. Os dois eram um casal. Onde um ia, o outro ia também. Se um sentava, o outro sentava, se um caminhava, o outro seguia. E assim era a rotina dos dois. A mimo teve dois filhos (com um gato de rua chamado Pretinho E Branquinho), o Gordo e a Menina. 

Após um tempo ela teve outros filhotes (estes eu não sei de quem). E justo nessa época havia um gato cinza, ou o Cinzão, como o chamávamos. Ele estava com o objetivo de matar todos gatinhos pequeninhos. A Mimo os protegia, claro, ela era rainha, ela transmitia segurança e tranquilidade para todos. Era perfeita. Foi o ser que mais amei nessa vida. De verdade. 

Não vou contar em detalhes a partir de agora, quero dizer, não acho muito legal lembrar do ocorrido. Mas ela foi atropelada pela cabeça, e eu vi quando ainda estava se mexendo. Foi meio horrível, e eu prefiro acreditar que ela tenha se suicidado, quero dizer, opção dela mesmo ter se atirado debaixo do carro e voltado para onde tinha vindo, começar uma revolução naquele lugar, e fazer, de algum mundo pelo menos, um pouco melhor. 

Os filhotes dela nem nós conseguimos proteger do Cinzão. Foram mortos. E essa cena trágica aconteceu na minha quinta série. Lembro-me de ficar escrevendo "Mimo" em tudo que é lugar e desenhar ela também. Inclusive até hoje mantenho essa mania. De repente lembro de escrever "Mimo" nos lugares e assim faço. Lembro do pescoço dela que era branco como as nuvens e jeitosos como só ela conseguia fazer. Sempre impecáveis. Ela tava sempre pela minha volta. Era minha princesinha máscula e autoritária. Mas minha. 

2 Comentários :

  1. Sinto muito pelo gato. Tenho 13 aqui no meu pátio e mais 2 que vivem dentro de casa. Quando morre um, só noto a diferença quando me avisam, por que na maioria nem percebo, tem sempre gato novo entrando e saindo desse pátio que até já me perdi de quais são meus e quais não são...

    Mas se tu goste de gatos, acessa o nosso site de notícias www.profetaviciado.com.br, vamos falar sobre o destino dos ThunderCats nos quadrinhos e no cinema futuramente, mas enquanto não escrevemos o artigo, dá uma olhada nas notícias que ocorreram nessa semana.

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  2. Tragico mas lindo! Adorei a parte de ela voltar para onde veio e fazer de la um lugar melhor! A observacao que tu fez de mulher nao poder comandar tambem foi legal, e achei interessante o nome dela ser Mimo, tipo ela atender por esse nome. Eu nunca tive gatos, somente cachorros, mas convivi por um tempo com um gato chamado Buddy, e acredito que eles sao seres magicos. Assim, eu amo as minhas cachorras demais, mas pra mim elas sao quase humanas, ja os gatos sao seres superiores, estao em outro grau, e pela tua historia da pra ver bem isso. A questao de ela impor respeito e de tu e a tua irma nunca mais brigarem. Gatos tem esse poder! Um dia vou ter um(a) gato(a). =)

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