Pages

Conto incompleto (1)

Wednesday, February 12, 2014
Estou caindo de um abismo. E quem me dera fosse ele de modo literal, não deste no qual me encontro. O pior de tudo, é que não posso nem me atirar de um, na situação em que estou. Claro que eu poderia, sempre há um jeito, mas não serei hipócrita, eu prefiro viver com meus problemas do que matá-los e acabar com minha (mesmo que inútil) vida junto. Se tem uma coisa que eu prezo, acima de tudo e de todos, é minha vida e uma boa saúde. Sempre paguei planos de saúde com preços absurdamente altos para mim, não me agradaria de nenhum modo acabar por falecer atirado ao chão, clamando socorro, à beira de um hospital, que de tão grandes filas, não conseguiria nem chegar lá dentro. Não foi para isso que eu recebi tanto dinheiro nessa vida. Há quem seja agraciado por Deus (se é que ele existe, nunca tive tanto tempo de sobra para pensar muito sobre isso) com sabedoria, outros com talentos maravilhosos, mas eu, fui agraciado com o dinheiro. E não acho que o gastando com minha saúde seja um mau negócio. Não jogo comida fora e sempre doei cestas básicas para famílias carentes (inclusive com remédios dentro), ou dava, agora tudo o que eu fiz ficará unica e exclusivamente no passado, não terei como voltar a fazê-lo, ou não consigo pensar em nada no momento, ao menos.

A sensação de que seu chão abre-se aos pés é muito mais intensa e tranquilizadora ao mesmo tempo, quando são com casos banais. Então o melhor a se fazer é sofrer como se fosse a pior coisa do mundo, e que ninguém jamais passou por aquilo, que é castigo de algum dos vários deuses presentes que tanto falam. Porque quando algo horrível de fato acontecer, tudo o quanto já choraste terá perdido o sentido. Aquela sensação de tudo acabando ao redor não aparece em horas como essas. Nem tem tempo para acontecer isso, na verdade.

O fato é que eu estou agora no meio da estrada, caminhando e rezando para que qualquer um dos deuses existam e não deixe ninguém me reconhecer. Estou com meus pés inchados, não posso andar de carro, poderiam pedir meus documentos. E nem pedir carona, poderiam perceber que sou o mesmo cara que está provavelmente com a cara carimbada em todos os jornais dos arredores.

Não posso dizer que não tive culpa no que ocorreu, isso eu admito, por mais duro que seja. Mas nego que tenha sido intencional. E talvez o caso nem tenha passado na televisão, com sorte só numa machete pequena do jornal da cidade. Aqui, estou um pouco a salvo, mas não confio tanto em minha sorte. Aliás, sorte eu tive por um momento, há seis anos atrás, quando minha... esposa queimou acidentalmente meu rosto, mas sobre isso eu não entrarei em detalhes. O caso é que deixou uma marca no lado direito de meu rosto, longe o suficiente da boca para que pudesse ser coberto pela barba — e esse também foi um dos motivos para deixar crescer a barba. E o que tem de sorte nisso? Eu tenho uma marca que não possuía antes, ou seja, não aparece na carteira de identidade. E caso minha foto apareça no jornal da noite, que passa na televisão, será um motivo para pensarem duas vezes antes de me denunciar (e até perceberem, eu já fugi novamente). Fora a barba e longo cabelo que eu cortei. Faz dois dias desde que tudo mudou.

0 Comentários :

Post a Comment

Não esqueçam de deixar a opinião de vocês, lerei tudo com o maior carinho do mundo ♥
Podem falar mal, criticar, dizer que ficou uma merda (e falar coisas boas também pode ser uma opção). Enfim, expresse sua opinião aqui e faça uma Ribacki feliz :)