Pages

Conto incompleto (2)

Thursday, February 13, 2014
Toda vez que começava a chuva Valentina fazia o mesmo ritual: preparava uma pipoca caramelada, sentava-se na beira da janela, onde havia um sofá — e ela achava aquilo um máximo. Vinham de família pobre, mas seu pai fizera seu quarto como ela gostava, parecendo um quarto de princesa. Claro, com vinte e três anos ela não mais era aquela garotinha encantada com o próprio quarto, e que adorava contos de fadas. Mas aquele quarto, que agora sem ninguém a morar nele, estava cheio de cupins, tinha um carinho especial que pairava sobre. Seu pai fazia hora extra todas as noites para sustentar a família depois da morte de sua mãe, aos seis anos de idade. Quando juntou dinheiro suficiente (e ainda assim, foi necessário comprar materiais de baixo custo), arrumou ele mesmo o quarto dela, da maneira bagunçada dele, porém o fez. E ali no sofá era sua parte favorita daquela casa futuramente abandonada. 

Comia a pipoca olhando a chuva. Para ela, aquilo era melhor que qualquer filme. As nuvens escuras se aproximando, com suas formas gigantes, isso era mais encantador do que um beijo de um casal apaixonado. No lado esquerdo da janela, havia um vidro quebrado. A culpa não fora dela. Seu pai pegou restos de vidros que achou em tele-entulhos para fazer a janela, mas ela gostava disso. Gostava daquela abertura, assim podia sentir o vento da chuva, que não era igual ao vento de um ventilador, ou qualquer outra coisa. Vento de chuva era momento único, nada o poderia reproduzir tão bem para ela aquela sensação gostosa. 

Nunca gostou de seu nome, Valentina. Ou melhor, agora ela gostava, mas quando adolescente sempre achou uma grande piada. Seu pai lhe dissera que tinha dado este nome por causa de uma personagem, considerada a mais sexy das histórias em quadrinhos, e dizia que ela se tornaria tão bonita quanto aquela personagem, como sua mãe assim era. Acreditava nisso até seus onze anos, época em que as garotas da escola já começavam a mudar seus corpos, e chamarem a atenção dos garotos, mas ela não. Crescia de forma ridícula. Nunca fora bonita, é verdade, nem nunca seria, mas agora estava acostumada com a ideia, essa já não era mais uma preocupação sua. Principalmente naquele momento. Depois que viu que seu nome não era o culpado por ela ser daquele jeito, começou a gostar dele. Tinha uma boa sonoridade.

Agora se encontrava ali, sentada, provavelmente a última vez que se sentaria ali. Queria chorar, mas isso atrapalharia o momento. Viveu-o intensamente. Esperou o dia certo, viu na previsão do tempo, esperou que o tempo se armasse e correu para a antiga casa, onde moravam seus pais. A pipoca fez em casa — assim que sentiu aquele vento que diz que vai trazer a chuva consigo —, já estava com tudo preparado para aquele momento lindo. 

Começaram a cair algumas gotas em seu rosto, pelo vidro que estava quebrado. Essa era sua parte favorita. 

0 Comentários :

Post a Comment

Não esqueçam de deixar a opinião de vocês, lerei tudo com o maior carinho do mundo ♥
Podem falar mal, criticar, dizer que ficou uma merda (e falar coisas boas também pode ser uma opção). Enfim, expresse sua opinião aqui e faça uma Ribacki feliz :)